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Por: comKids (Redator)

A pandemia da Covid-19 forçou a educação a funcionar de maneira remota. Para creches e pré-escolas, onde a interação humana é essencial e a exposição a telas é restrita, encontrar soluções é um desafio ainda maior

Reportagem: Priscila Crispi

Esta matéria encerra a série de reportagens publicada pelo comKids sobre a relação entre a primeira infância e as mídias no contexto da pandemia da Covid-19. A matéria foi realizada com apoio da Rede Nacional Primeira Infância, no âmbito do projeto Primeira Infância é Prioridade, tendo sido contemplada com um prêmio para sua produção. As duas primeiras reportagens abordam o consumo de telas durante o isolamento social (confira aqui) e a qualidade dos conteúdos destinados ao público infantil (e aqui).

Na primeira quinzena de março de 2020, quando estados e municípios do Brasil começaram a decretar medidas de isolamento social, as instituições de ensino estavam entre os primeiros espaços a serem fechados. O Ministério da Educação (MEC) publicou no mesmo mês uma portaria que autorizava a substituição das aulas presenciais da Educação Básica pela modalidade à distância, inicialmente por 30 dias e em caráter emergencial, autorizando o uso de metodologias remotas também nos primeiros anos do Ensino Fundamental e na Educação Infantil, o que não estava previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).

A suspensão das aulas viria a ser ampliada nos meses seguintes e o fechamento das escolas se tornou uma das principais medidas contra a proliferação do novo coronavírus. Alguns estados autorizaram o retorno das aulas apenas no mês de outubro, mas dez unidades federativas seguem sem previsão de retorno ou apenas com propostas de abertura.

 

Diferenças regionais

O ensino à distância, porém, não teve uma resposta coordenada: todos os estados e o DF adotaram atividades remotas, mas cada um elaborou sua própria estratégia – alguns usaram plataformas virtuais, outros sites, TV aberta e até mesmo o WhatsApp. Já nos municípios, responsáveis pelas pré-escolas e creches, o cenário foi outro: ao menos sete capitais não adotaram nenhuma atividade remota. Segundo estudo realizado pela Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) em parceria com o Instituto Rui Barbosa (IRB), 41% das redes municipais de Educação Infantil disponibilizaram semanalmente conteúdos aos alunos, 31% quinzenalmente e 28% diariamente.

A experiência de Jéssika dos Anjos, chef de cozinha que tem a filha de três anos matriculada em uma creche pública da cidade de São Paulo, se enquadra entre uma minoria, a das famílias que receberam material da escola diariamente durante a quarenta. Porém, a mãe não considera que a estratégia foi efetiva. “A escola da Lara montou um grupo de WhatsApp com todos os pais, de todas as turmas, e ficou mandando vídeos de historinhas, com as professoras fazendo contação, ou de músicas. No começo, eu baixava os vídeos, fazia algumas atividades com ela, mas depois acabei deixando passar porque é um volume muito grande de atividades e muitas que chegavam não eram para a faixa etária dela”, conta.

Lara, de três anos, se diverte com um amigo em casa. A mãe tem recorrido a visitas e espaços de recreação que já foram abertos para substituir as atividades da creche, que seguem remotas, e manter o contato dela com outras crianças. Créditos: Gabriela Leite.

Uma orientação nacional para o ensino à distância no contexto do fechamento das escolas só aconteceu em junho, quando o MEC aprovou um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) com orientações sobre o uso de meios digitais, videoaulas, plataformas virtuais, redes sociais, programas de televisão ou rádio, material didático impresso e outras soluções para o ensino remoto. Para crianças de zero a cinco anos, a determinação era de que os gestores buscassem uma aproximação virtual dos professores com as famílias, de modo a estreitar vínculos e fazer sugestões de atividades às crianças e aos pais. O documento admitia, porém, “algumas atividades em meios digitais quando for possível” para pré-escola (quatro e cinco anos).

O parecer reforçava, ainda, a determinação de uma medida provisória editada em abril que estipulava a manutenção da carga horária mínima determinada por lei, 800 horas, mas desobrigava o cumprimento dos 200 dias letivos antes fixados. Segundo o CNE, horas-aulas remotas poderiam compor o ano letivo de 2020.

 

A importância do presencial

Dar conta do cumprimento do calendário escolar, considerando a falta de preparo de docentes e redes para adaptar o ensino para uma nova modalidade em tão pouco tempo, além das dificuldades de acesso das famílias a computadores e internet, foi uma realidade universal na Educação Básica. Mas o ensino para crianças pequenas esbarrou em dificuldades extras.

“Não há razão para que sejam implementadas de maneira precipitada iniciativas visando atender o cumprimento das horas anuais, tendo em vista que o objetivo principal da Educação Infantil, o desenvolvimento integral das crianças, de maneira complementar à ação das famílias e da comunidade, depende de condições mínimas de qualidade que não podem ser asseguradas por meio da transposição do que deve ser realizado presencialmente para atividades remotas delegadas às famílias”, defende um manifesto divulgado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Outras entidades e redes ligadas aos direitos das crianças e à educação também se manifestaram contrárias à adoção do ensino à distância na Educação Infantil.

Para Beatriz Abuchaim, gerente de conhecimento aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, é importante diferenciar a educação à distância do ensino remoto. “De maneira geral, pensar na Educação Infantil como uma modalidade à distância é inadequado. Para essa faixa etária, o ensino é presencial, pelo que está colocado nos nossos documentos curriculares. A Base Nacional Comum Curricular fala de uma organização da Educação Infantil por meio de campos de experiências, que são as interações e brincadeiras. Fica muito difícil pensar em garantir isso com a criança na frente de uma tela, recebendo alguns estímulos e reagindo a eles”, ela afirma, lembrando ainda as orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria, que restringe o uso de telas na primeira infância a uma hora por dia e somente após os dois anos.

Beatriz pontua, porém que, dado o contexto excepcional da pandemia que deve se estender para o próximo ano, algumas atividades remotas – ou seja, feitas fora do ambiente escolar – podem ser consideradas adequadas à Educação Infantil, desde que mediadas por um adulto. “Faz mais sentido a escola manter o contato com as famílias e ajudá-las a organizarem uma rotina para a criança, e dentro dessa rotina propor algumas atividades que os pais farão junto”, sugere. Segundo ela, encontros virtuais espaçados que fomentam o contato entre professores e o grupo de alunos também são bem-vindos.

Nayara Jarvis confirma a visão da especialista. A mãe, bancária que tinha o filho de três anos matriculado em uma creche particular em Brasília, diz que não tentaria uma modalidade de ensino totalmente à distância em nenhuma hipótese, porém, considera o apoio virtual da escola importante para melhorar a interação com o filho: “eles mandavam vídeos, mas eu gostaria que a escola do Henrique tivesse mandado também ideias de atividades com as crianças, de brincadeiras… Eu senti falta desse olhar pedagógico que os professores têm na hora de pensar as atividades pra fazer com ele em casa”.

Henrique, de três anos, assiste TV em casa, durante a quarentena. A família pretende matriculá-lo em uma nova escola que propôs aulas presenciais em esquema de rodízio – “quero ele menos tempo nas telas ano que vem”, diz a mãe.

Ítalo Dutra, Chefe de Educação da UNICEF Brasil, reforça que a presencialidade e interação entre crianças e professores são insubstituíveis na Educação Infantil. “O ideal é a educação na escola, com todas as condições possíveis, a formação necessária dos professores, a estrutura e etc. A escola é um lugar protetivo, de garantia de direitos. Porém, vivemos uma crise sem precedentes, que atinge o Brasil, em especial, de forma muito forte. Esse contexto exigiu alternativas remotas para manter o contato com a aprendizagem e o vínculo entre escolas e famílias”, afirma.

Pensando nisso, a UNICEF desenvolveu um podcast para ser distribuído nas plataformas digitais e também disponibilizado em rádios pelo país, com contação de histórias e brincadeiras, destinado a crianças em idade de frequentar a pré-escola e em processo de alfabetização – o Deixa que eu te conto (confira aqui). “Entendemos que isso é uma medida emergencial e que iniciativas assim são necessárias, mas não substituem o ano escolar. Esperamos que as condições para que a Educação Infantil seja retomada possam ser alcançadas no Brasil em breve”, diz Ítalo.

 

Algumas experiências

A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal adotou estratégias diferentes ao longo de 2020 para substituir as aulas presenciais. Em março, a pasta passou a veicular pela TV Justiça, em sinal aberto, teleaulas para todos os ciclos da Educação Básica. “Na Educação Infantil, não era uma aula expositiva como nas outras etapas, precisava ter um formato atrativo, contação de histórias, música e brincadeiras. No começo, entrávamos no ar apenas com os educadores da nossa diretoria que também são contadores de histórias, mas alguns pais disseram que queriam entender o porquê das atividades propostas, então acrescentamos outra parte na transmissão, que era uma introdução que eu fazia pra explicar pras famílias como aquele conteúdo se relacionava com as diretrizes curriculares”, conta Andréia Martinez, diretora de Educação Infantil do DF.

Em julho, porém, um decreto distrital determinou que as aulas fossem retomadas remotamente para o cumprimento da carga horária obrigatória. Para atender ao currículo de toda Educação Básica, o tempo que a Secretaria tinha disponível no canal de TV não era suficiente, então as aulas passaram a acontecer por meio da plataforma Google Sala de Aula. Segundo a diretora, a Secretaria estabeleceu uma política para tentar garantir que todas os estudantes tenham acesso à internet gratuita por meio de um chamamento público a operadoras de internet móvel. A pasta repassa para as empresas o custo do pacote de dados das famílias cadastradas no Programa Escola em Casa DF e que não podem pagar pelo serviço.

A plataforma traz atividades síncronas, para serem feitas ao vivo, e assíncronas, que podem ser realizadas a qualquer momento. No caso dos bebês, o que é disponibilizado não se destina a eles e sim às famílias, orientando o que fazer e porque fazer cada atividade. A partir dos 2 anos, os professores falam diretamente com as crianças, podendo enviar vídeoaulas, fazer chamadas em grupo, ou disponibilizar materiais audiovisuais desde que cumprido o tempo máximo de uso de telas indicado pela Sociedade Brasileira de Pediatria para a faixa etária, uma hora por dia.

Para os estudantes que não possuem um aparelho para acessar a plataforma, as escolas foram orientadas a distribuir também materiais físicos. “No caso da Educação Infantil, nossa preocupação é que as atividades não sejam só de prontidão. Disponibilizamos outros tipos de materiais, como livros, que tragam o lúdico e não forcem atividades mecanizadas”, afirma Andréia. A estratégia deve seguir funcionando até janeiro de 2021 e somente em março do próximo ano a Secretaria faz planos para iniciar um novo ciclo letivo em modalidade híbrida, com aulas presenciais e remotas, que deve durar dois anos.

No interior da Paraíba, na zona rural do município de Bananeiras, a escola comunitária de Educação Infantil e Ensino Fundamental Nossa Senhora do Carmo, que em breve passará a se chamar Escola dos Sonhos, experimentou uma transição tranquila para o ensino remoto – o motivo: sua pedagogia de projetos. “O ponto de partida da nossa metodologia são os projetos de pesquisa. O audiovisual e a internet sempre fizeram parte da apropriação de conhecimento na nossa escola, porque a maioria das coisas que as crianças querem estudar não está nos livros didáticos”, explica Leila Coêlho, membro do Comitê Gestor da instituição.

“Quando recebemos o decreto municipal de fechamento das escolas por causa da pandemia estávamos finalizando um roteiro de aprendizagem para as próximas três semanas, que já tinha sido construído a partir das curiosidades dos educandos. Então, não precisamos parar para pensar o que fazer ou como. Naturalmente, passamos a enviar os roteiros para serem desenvolvidos, agora, em casa – com a ajuda dos familiares e acompanhamento pedagógico dos tutores, que acontece por chamadas telefônicas, whatsApp, plataformas digitais para crianças maiores e material impresso”, conta Leila.

Crianças da escola comunitária Nossa Senhora do Carmo, na Paraíba, já utilizavam a internet em suas rotinas de estudo antes da pandemia. A autonomia para executar atividades, um dos pilares da instituição, contribuiu na transição para o ensino remoto. Créditos: Felipe Barquete/Semente Cinematográfica.

Diariamente, os tutores da Educação Infantil entram em contato com as famílias se disponibilizando para esclarecer dúvidas sobre as atividades, mas os alunos e pais têm autonomia para decidir quando vão realizá-las ao longo das três semanas que compõem o roteiro de aprendizagem. Toda semana, as crianças e os pais se reúnem em uma videochamada com a turma e o tutor para fazer um balanço de aprendizagem.

“A gente percebeu que o tempo escolar da criança na instituição e em casa é diferente, então não programamos mais atividades diárias, mas blocos de atividades. Vamos levar essa descoberta em conta na elaboração da metodologia para o próximo ano letivo, que vai funcionar de maneira híbrida”, afirma a educadora. A escola Nossa Senhora do Carmo já estava construindo desde 2017 novos espaços físicos abertos, sem salas de aula e paredes, o que vai colaborar também com a adequação aos novos protocolos sanitários de distanciamento social e ventilação quando o ensino presencial for retomado.

 

Tecnologias que aproximam

Vanusa Silva é dona de casa e mãe de José Igor, de 6 anos, que frequenta a escola no 1º ano do Núcleo de Iniciação. Ela conta que com a pandemia teve que conciliar as tarefas da casa e o cuidado da família com o estudo do menino. “No começo fiquei assustada, mas só tenho a agradecer à escola pelo apoio que me deu. Estou sempre em contato com a tutora e o Igor também. O que não entendo pergunto a ela, já debatemos com ele na hora – isso ajuda bastante, não só a realizar as atividades, mas é positivo porque é uma aprendizagem que parte dele”, diz a mãe.

Vanusa e o filho, Igor, de seis anos, passaram a realizar mais atividades juntos durante a pandemia. A mãe estabeleceu uma rotina e, todos os dias, após as 13h eles sentam juntos para estudar. Créditos: arquivo pessoal.

“Acredito que o papel da escola é ajudar seus educandos a viverem felizes, mais solidários, menos competitivos, mais inteiros, menos inseguros, que promova o autoconhecimento e a consciência de que somos parte integrantes deste ecossistema. O uso das mídias e de tecnologias remotas na escola deve favorecer a esse desenvolvimento e não a uma alienação do ser e estar no mundo”, defende Leila.

O Lunetas, portal de jornalismo sobre as infâncias brasileiras, publicou em agosto deste ano o especial “Infâncias e tecnologias”, que aborda muitas temáticas consonantes às tratadas por essa série de reportagens. Em uma parceria de divulgação, sugerimos a leitura da seguinte matéria, que contempla um aspecto do uso das mídias na educação que não foi abordado neste artigo:

A tecnologia como aliada das crianças com deficiência.

Crédito da foto de destaque: Felipe Barquete/Semente Cinematográfica