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Por: comKids (Redator)

Com escolas fechadas, mídias viraram protagonistas nas rotinas familiares, o que significou não só mais tempo de tela, mas também maior centralidade das experiências virtuais

Reportagem: Priscila Crispi

Créditos: Gabriela Leite

O comKids começa a publicar uma série de reportagens especiais sobre a relação entre a primeira infância e as mídias no contexto da pandemia da Covid-19. As matérias irão abordar questões como o uso das telas, o perfil das crianças que nasceram na era da conexão (tema da segunda matéria da série, leia aqui) e a problemática da educação infantil no contexto da pandemia (abordada na terceira matéria da série, confira aqui). A reportagem foi feita com apoio da Rede Nacional Primeira Infância, no âmbito do projeto Primeira Infância é Prioridade, tendo sido contemplada com um prêmio para sua produção. Para começar, vamos falar de um dos aspectos que mais preocupam os adultos quando o assunto é crianças e mídias: o tempo dedicado a elas.

De acordo com um estudo divulgado pela SuperAwesome, empresa americana de tecnologia em mídia digital, crianças entre 6 e 12 anos passaram cerca de 50% do seu tempo de quarentena em frente a telas, ou seja, metade do dia. Os pesquisadores afirmam que o tempo gasto com celulares, tablets, computadores e a boa e velha TV, aumentou de duas a três vezes em relação ao consumo habitual.

Apesar de alarmante, o dado confirma uma tendência esperada. Além das aulas, que passaram a ser online, outras atividades que aconteciam em espaços de aprendizagem também foram forçadas a se limitar ao virtual, como jogos e conversas. E, por aqui, o fechamento das escolas durou muito.

De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil foi um dos países do mundo que passou mais tempo em 2020 com crianças longe das salas de aula. As instituições de ensino começaram a fechar as portas em março e ainda hoje, início de novembro, dez estados seguem sem previsão de retorno ou apenas com propostas de abertura, segundo dados do Mapa de Retorno das Atividades Educacionais Presenciais no Brasil, elaborado pela Federação Nacional de Escolas Particulares.

Além de ocupar o tempo que antes pertencia às escolas e sem saber até quando isso vai durar, pais e cuidadores se viram às voltas com a responsabilidade de manter os laços familiares e sociais das crianças vivos – sem contato presencial. Ver os avós apenas por videochamadas foi o que restou para muitas crianças, e foi em 2020 que conhecemos, pela primeira vez, as festinhas de aniversário pelo Zoom.

O tamanho das casas também passou a ser uma questão. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2019, divulgada em maio pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 126 mil famílias vivem em moradias onde as pessoas utilizam o mesmo ambiente para diversas funções como dormir, cozinhar e trabalhar. Em muitas outras, há mais de um cômodo, mas pouco espaço para se exercitar ou brincar. Na falta de brinquedos, companhia e até privacidade, as telas foram o único entretenimento possível para várias crianças confinadas.

E os dados confirmam que as telas, embora não possam ser consideradas como democráticas, são mais presentes que muitos outros recursos. Segundo o Ibope, cerca de 97% dos domicílios do país possuem pelo menos um aparelho de televisão. No que diz respeito ao acesso à internet, mais de 68% das crianças entre 4 e 6 anos que são de famílias de baixa renda (classes D e E) têm algum tipo de acesso. Na classe C esse percentual sobe para 81% e nas classes A e B, 90%, de acordo com a pesquisa Papagaio Pipa 2019, desenvolvida pelo instituto de inteligência de mercado brasileiro MultiFocus.

“A mudança de ritmo de vida e a falta das atividades de antes da pandemia geraram uma série de necessidades. As crianças precisaram de companhia, consolo e união familiar para manter o equilíbrio emocional. Os pais foram atrás das possibilidades que pudessem preencher esse espaço e tornar o seu dia a dia menos pesado. E aí entram com tudo os conteúdos audiovisuais, principalmente em momentos em que os pais estão ocupados com suas atividades de trabalho ou da casa”, explica Ana Helena Reis, presidente do Instituto Multifocus.

A experiência de Jéssika dos Anjos, mãe da Lara, de três anos, reforça a fala da pesquisadora. A chef de cozinha, que mora na cidade de São Paulo, diz que sentiu muito a ausência da escola, que funcionava como um apoio com quem podia dividir as demandas da filha. “Acho que uma criança pequena não tem necessidade nenhuma de ter acesso a telas. Eu dou sabendo que é uma necessidade minha, por causa da rotina insana de trabalho que eu e meu marido temos hoje. Eu preciso desse tempo”, diz.

Lara e o amigo Levi brincam juntos, cada um com seu aparelho. A menina passou a ficar de 30 minutos a uma hora por dia no celular durante a pandemia. Créditos: Gabriela Leite.

Um apoio emocional

Ao contrário da percepção de Jéssika e de outros pais de que as telas servem somente aos interesses dos adultos e não às necessidades das crianças, a pesquisa “Crianças, Mídia e COVID-19”, realizada pelo Instituto Central Internacional de Televisão para a Juventude e a Educação, da Bavarian Broadcasting Cooperation e a Fundação Prix Jeunesse, sugere outra realidade. O estudo foi realizado com mais de 4 mil crianças, de 9 a 13 anos de idade, em 42 países, e revelou que o acesso ao conhecimento básico sobre o novo coronavírus e sobre as formas de proteção contra a contaminação, oferecidas pelas mídias, ajudaram a deixá-las menos preocupadas. 

Em todo o mundo, uma em cada duas crianças se sente preocupada por causa do coronavírus. A porcentagem de crianças “muito preocupadas” difere de país para país. As crianças brasileiras estão enquadradas na média do mundo em suas respostas, porém apresentam uma preocupação excessiva quanto a seus pais e amigos poderem contrair a doença, além de uma grande percepção sobre o alto nível de ansiedade de seus pais durante a pandemia – 75% dos entrevistados dizem perceber que os pais estão preocupados, o maior índice entre os países pesquisados. 

O que o estudo deixa muito claro é a conexão entre preocupação e conhecimento. Quanto menos fatos a criança souber sobre o vírus e quanto menos souber discernir entre notícias falsas e confiáveis, maior será a proporção das “muito preocupadas”. O conhecimento está ligado à redução da incerteza e, portanto, à redução de preocupações. “As crianças precisam de informações e mídias confiáveis e apropriadas para suas idades, criadas para explicar a situação sem assustá-las ou estimular a ansiedade”, diz a pesquisadora líder do estudo, Dra. Maya Götz, da Alemanha.

Os entrevistados informaram três razões principais pelas quais recorriam às mídias durante o confinamento: lidar com o tédio, falar com amigos e fazer pesquisas escolares. Sete em cada dez crianças usaram os meios de comunicação para entender o que estava acontecendo no mundo. Os meios também desempenharam um papel na regulação das emoções. Metade dos meninos e meninas disseram recorrer a eles quando estavam tristes e 60% deles quando estavam sozinhos ou assustados. Enquanto a metade dos participantes contou que os noticiários os deixavam angustiados, mais de 65% declararam que gostariam que a TV infantil falasse mais sobre o coronavírus.

O estudo conclui que os meios de comunicação para a infância têm uma grande responsabilidade em informar sobre a situação atual de maneira apropriada para cada idade, com um tratamento também emocional para os assuntos, além de promover um comportamento cidadão e de cuidado, para consigo e com os outros.

“Do conteúdo que meu filho consome, boa parte ensina ele alguma coisa e a gente consegue aplicar isso no dia a dia. Quando quero ensinar ou reforçar algum comportamento, consigo usar as situações dos desenhos pra remeter a isso – por exemplo, tem a música do lixo que ele gosta, a outra de lavar as mãos… Nessas horas, eu lembro ele das músicas. Mas penso que outra parte do consumo de mídia é só entretenimento mesmo. E não sei se isso é totalmente vazio porque tem o humor, ele ri… Eu vejo que tem uma interação, não é só ele vidrado na frente da tela”, afirma Nayara Jarves Tomé, bancária e mãe do Henrique, de três anos.

Henrique se diverte com os clipes do Mundo Bita. A mãe gostaria que ele tivesse passado menos tempo diante da TV durante a quarentena, mas acredita que, dentro de um limite, as telas podem funcionar como uma brincadeira. Créditos: arquivo pessoal.

O perigo do excesso

O conceito de tempo de tela é defendido por associações de pediatras de todo o mundo para preservar a saúde das crianças. Isso porque ficar horas diante de telas significa perder oportunidades de praticar outras habilidades importantes, interagir socialmente e ter contato com a natureza e com objetos físicos.

Mas antes disso, o alerta é devido ao fato de que as telas estimulam a produção de dopamina no corpo. A dopamina é um mensageiro químico, ou neurotransmissor, que atua no sistema nervoso central e está relacionado a funções como a regulação de emoções e o alívio da dor. Seu aumento pode causar dependência ou levar a dificuldades para dormir e transtornos de comportamento, em casos mais extremos. Estudos apontam, ainda, que a exposição abusiva a telas pode atrasar o amadurecimento anatômico e funcional do cérebro em relação ao desenvolvimento da linguagem e atenção.

A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou suas recomendações em maio, reconhecendo a importância das telas neste momento e aumentando o tempo de exposição recomendado anteriormente, mas pedindo que pais e cuidadores se esforcem para preservar a rotina das crianças, mantendo horários de sono, refeições e o relacionamento afetivo que vá além dos eletrônicos. Para os menores de dois anos, o guia defende que as telas devem servir para o contato com familiares – e mais nada além disso. Para crianças com idades entre dois e cinco anos, a orientação é limitar o tempo de telas ao máximo de uma hora por dia, sempre com supervisão. Entre seis e dez anos, o máximo é de duas horas.

Na visão de Caroline Marques, psicóloga que atua no atendimento clínico de crianças e também como consultora para o desenvolvimento de metodologias ativas de aprendizagem, o problema, em especial na primeira infância, está na preeminência da experiência digital em detrimento ao mundo físico e não no contato com as telas, em si. “O bebê antes de entender o mundo 2D deveria desenvolver o movimento de pinça, entender que as coisas têm formas, têm peso, são tridimensionais. A questão aqui é não abandonar o analógico, e o adulto é o guardião desse processo de desenvolvimento, responsável por apresentar texturas, terra, a natureza…”, explica.

A especialista afirma que o paradigma do analógico antes do digital vale também para os contatos virtuais – redes sociais e videochamadas podem fazer parte de um processo de socialização, mas não antes da socialização primária com a família e a secundária na escola. “A primeira infância precisa do analógico porque ela é corpo, é presença, são os cinco sentidos afloradíssimos”, completa.

O UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, publicou em abril um artigo sobre como “repensar o tempo de tela em tempos de covid-19”. O documento afirma que há evidências recentes de que o impacto do uso de telas na saúde mental e no bem-estar das crianças é relativamente pequeno. “Outros fatores, como o apoio dos pais, as relações familiares e as experiências adversas na infância são muito mais impactantes do que o tempo de tela”, aponta o relatório.

Para o órgão, é preciso que cuidadores prestem mais atenção ao que as crianças fazem online, com quais conteúdos se deparam e que redes de apoio têm fora das telas do que apenas no tempo que gastam com essas tecnologias. O artigo sugere que as famílias usem as telas para promover atividades físicas, como jogos de simulação, e defende estratégias ativas, como conversar com as crianças sobre sua experiência online e assegurar-se de que estejam usando apenas jogos e redes apropriados para sua idade.

As orientações de Caroline vão no mesmo sentido: apresentar conteúdos de qualidade e adequados à primeira infância, especialmente a partir dos três anos de idade, pode estimular a imaginação e contribuir para a saúde emocional das crianças. “Muitas ações foram feitas durante a pandemia de contação, de criação audiovisual, jogos, enfim, histórias sobre emoções, sobre a saudade, que foram muito importantes para atenuar o excesso de realidade desse ano triste. O lúdico, a arte, a cultura, têm um papel muito importante na vida da criança e depois vai desempenhar um papel também na vida do adulto, de dar leveza pra vida e não deixar que nosso corpo adoeça”, diz.

O Lunetas, portal de jornalismo sobre as infâncias brasileiras, publicou em agosto deste ano o especial “Infâncias e tecnologias”, que aborda muitas temáticas consonantes às tratadas por essa série de reportagens. Em uma parceria de divulgação, sugerimos a leitura da seguinte matéria, que complementa o recorte trazido por este artigo sobre o que as crianças pensam da sua própria era:     Um olhar para as infâncias conectadas