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Por: comKids (Redator)

O curta foi exibido em seis CEU’s de São Paulo

Um grupo de jovens estudantes de Midialogia em Campinas teve uma ideia para um projeto de filme em meio a uma disciplina de seu curso. Queriam retratar a história de uma menina que vive entre a realidade e a fantasia. Eles venceram um edital que permitiu passar da versão inicial para uma versão finalizada do curta. A equipe começou com meros seis participantes e foi crescendo até chegar aos mais de cinquenta participantes da edição final de “Coisa-Malu”. O curta-metragem foi lançado em 2015 e exibido em alguns dos CEU’s de São Paulo no final desse ano. O comKids quis acompanhar de perto o processo de criação desse filme e fez duas entrevistas com os participantes da equipe, uma ao vivo e outra por email. A edição dessa prosa boa, vocês podem conhecer aqui abaixo nesta postagem, boa leitura!

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Coisa-Malu, divulgação.

comKids – Vocês poderiam relatar um pouquinho como foi a exibição e as atividades que vocês fizeram nos CEU’s?

A gente ficou sabendo da existência do “Recreio nas férias”, que é um Programa dos CEU’s que acontece nas férias justamente nesse período de janeiro, em que os pais já voltaram a trabalhar. Durante esse Programa acontece uma série de atividades para as crianças: passeios, teatro, oficinas… então entramos em contato com uma pessoa da Sala CEU que gostou do filme e nos encaminhou para que as outras unidades CEU’s que tivessem interesse pudessem entrar em contato com a gente.

Nos organizamos para ter dois realizadores do filme, pelo menos, em cada uma das exibições. Por isso, dos doze CEU’s que demonstraram interesse, nós só conseguimos ter disponibilidade de ir a seis. O formato da atividade era esse: a gente entrava, introduzia um pouco o filme, sentava na plateia junto com eles e assistia. Era muito legal isso… depois, íamos lá para a frente, conversar.

Tentamos falar um pouco sobre a questão da identidade, para ver se eles começavam a assistir o filme pensando sobre o que faz a gente ser o que é… se podemos ser o que sonhamos, coisas assim. Era muito legal ficar sentado com eles porque escutamos comentários que não esperávamos. As crianças tinham entre 4 e 14 anos, os mais novos sentavam na frente, os mais velhos sentavam no fundo, ao longo das exibições fomos aprendendo a lidar melhor com as eles.

Na última exibição, no CEU Sapopempa, a Lyvia, que fez a Malu, também foi na exibição e conduziu as perguntas ao final. As crianças perguntavam para ela como se fosse a Malu, dizendo: “você achou seu caminho de volta para casa?”.

comKids – E a interação com os professores? Vocês tiveram algum feedback nesse sentido?

Não eram os professores que estavam lá, eram mais os coordenadores da atividade, porque os alunos estavam de férias. Eles auxiliavam bastante no início das sessões, para conseguir um pouco mais de silêncio, foi bem importante.

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Exibição nos CEU’s. Divulgação.

comKids – Vocês pretendem usar esse material, essa escuta das crianças, de algum jeito?

A gente sempre teve vontade de fazer alguns vídeos com as respostas das crianças sobre os filmes, mais com os questionamentos e com essas coisas inusitadas que escutamos, para ter um registro e poder divulgar isso também. Mas como estamos com uma equipe pequena nos dias de exibição, fica difícil fazer esse registro. Contudo, vamos tentar recolher material para publicar em nosso site no futuro.

comKids – Falem um pouquinho sobre o grupo de vocês…

Esse projeto começou há dois anos atrás. Começamos dentro de uma disciplina do curso de Midialogia na UNICAMP. Nessa disciplina tínhamos que realizar um curta ao longo de um semestre e para isso formamos um núcleo de seis pessoas. Passamos por várias reuniões de roteiro até realmente chegar em uma temática infantil de fantasia. No meio desse processo várias pessoas foram se juntando à equipe, pessoas de outros cursos do instituto de artes, como é o caso do nosso compositor Taynan Sanchez e do Iago Tojal, pifeiro do filme. Com essas novas pessoas veio também a ideia de ampliar o projeto e de trabalhar com a cultura popular brasileira.

E aí eles falaram: “Ó, tem um edital da UNICAMP, que funciona mais ou menos assim…” e nisso já estávamos fazendo o filme, mas resolvemos nos inscrever mesmo assim. Quando terminamos de gravar as cenas saiu o resultado: a gente tinha passado – justamente no dia em que terminamos de editar a primeira versão para mostrar para o professor! Foi aí que resolvemos fazer, um tipo de “Coisa-Malu 2.0”, que é o filme definitivo.

Gravamos tudo de novo, foi refeito. A própria atriz, da Malu, mudou e aí foi todo um processo novo, mas já com pelo menos um pouco mais de experiência, tentando nos organizar melhor… e agora com recursos financeiros, porque na versão anterior do filme conseguimos verba à base de vender brigadeiro, então era bem menos dinheiro (risos). Começamos com uma equipe de seis pessoas e quando a gente viu, já tinha uma equipe de mais de cinquenta trabalhando, além dos colaboradores que nos ajudaram com tudo que você pode imaginar : doações, abrigo, apoio moral, abraços (risos), tudo o que foi necessário.

comKids – como vocês chegaram à construção dessa narrativa? Falem um pouquinho em linhas gerais sobre isso…

Nosso processo de roteiro foi um grande aprendizado, como tudo no filme. A gente teve essa ideia original de fazer um curta de fantasia com a Malu e as duas primeiras coisas que surgiram foram o pifeiro e o portal, porque tem um lugar lá em Campinas que tem um portal (risos) então… vamos a isso! Como foi o primeiro filme fizemos, muitas coisas surgiram das possibilidades de fazer. Da realidade, sabe? Pensamos “Que lugar bonito têm aqui em Campinas?” Aí descobrimos o Pico das Cabras que é onde acontece a cena externa com o pifeiro, por exemplo.

O primeiro filme tinha 15 minutos, a versão de rascunho, já pro segundo começamos a repensar no roteiro e a questionar o que cada cena representava: “O que isso daqui do mundo mágico tem a ver com o mundo real da Malu?” e assim tentamos construir as ligações.

O meio que a gente estava também foi muito importante. Como estudamos no Instituto de Artes da Unicamp temos amigos de várias áreas, que acabaram acrescentando muito para o filme. O pessoal que faz Artes Cênicas estava trabalhando com teatro de máscaras… e nisso, fomos apresentado para personagens da cultura popular que nos encantaram, por isso tentamos colocá-los no filme de alguma forma.

comKids – Como foi o trabalho com a Lyvia (atriz que fez a Malu) e com os atores adultos? E quais foram as dificuldade de se trabalhar com atores e não atores?

Vimos a necessidade de ter alguma pessoa que pudesse auxiliar a gente nesse processo de direção, que seria uma preparadora de elenco, e aí entrou a nossa amiga Helena, estudante de Artes Cênicas. Nosso processo de casting foi pequeno, poucos encontros. A Lyvia, atriz da Malu, é de São Paulo e teve que ir a Campinas. Fomos nos aproximando aos poucos, a levamos para tomar um sorvete (risos) e aos poucos entendemos como poderíamos trabalhar com ela. Nos primeiros ensaios percebemos alguns “vícios de atuação” com propaganda e vídeos que não estão interessados no processo de aprofundar as personagens, de favorecer a expressividade da criança… por isso tivemos quase seis meses de processo com ela. Sentimos, no último encontro que tivemos antes de filmar a cena em junho, que tinhamos chegado em algum lugar, que ela tinha entendido muitas coisas, que nos se aproximamos de um processo de direção em que o ator conseguiu incorporar a coisa.

comKids – E como vocês conseguiram achar a Lyvia?

Olha, a gente postou em alguns grupos de atores do Facebook e a acabamos achando a Lyvia. Ela já tinha feito o teste para o primeiro filme e aí ela fez novamente para o segundo, e gostamos muito, ela é realmente talentosa. Do processo de ensaios, a levamos para conhecer a Vila São João, que é a casa da Malu. Entre refeições, brincadeiras e atividades criamos uma rotina de ensaios em que apresentamos pra ela o mundo da personagem e a deixamos construir esse mundo também, isso tudo foi muito legal. Hoje em dia ela é protagonista de uma série no Gloob, que é a “Buuu”.


comKids – Como vocês pensaram a cinematografia (direção de arte e fotografia)? E a contextualização, a apresentação dos personagens e os enquadramentos?

Nossa cinematografia se desenvolveu somando diferentes olhares. Ao longo do projeto, a equipe foi se tornando cada vez maior e todos contribuíram para o filme ser como ele é. Decidimos partir dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo) como base para desenvolver os cenários, o estilo da fotografia e o ritmo da montagem. Buscamos misturar fragmentos da cultura popular brasileira com elementos do cotidiano infantil, de forma lúdica. O filme é inteiro pensado sob a perspectiva do encantamento, de que o mundo mágico não está muito distante do mundo real.
Os personagens são apresentados através do ponto de vista da Malu, permitindo que os espectadores conhecessem esses seres mágico junto com a protagonista. Assim, optamos pelo plano subjetivo em muitas ocasiões, para aproximar as crianças das situações vividas pela personagem. A arte do filme foi feita de forma artesanal, a partir de materiais reciclados. O desafio foi reinventar esses materiais e transformá-los em elementos que trouxessem significado ao filme de uma maneira harmônica e divertida. Os elementos que remetem a brasilidade são os que dão unidade aos diferentes ambientes da história: chitas, fitas de cetim e fuxicos, que se encontram tanto na cenografia quanto nos figurinos.
Nossas principais referências foram filmes e programas televisivos que assistimos quando crianças: Hoje é Dia de Maria (2005), A Viagem de Chihiro (2001), Alice no País das Maravilhas (1951), Capitu (2008), Kiriku e a Feiticeira (1998), Castelo Rá Tim Bum (1994).

comKids – Como vocês compuseram essa narrativa, a relação dos personagens, e as esquetes das personagens? Como vocês pensaram em conduzir a relação da Malu com as personagens? Qual é a grande questão do filme?

O Coisa-Malu foi nosso primeiro filme e seu roteiro saiu de forma coletiva. Éramos seis pessoas, reunindo-se quase diariamente. A história surgiu como uma colcha de retalhos, a partir de nossas próprias maluquices, inquietações e experiências cotidianas. Quisemos contar a história de uma menina visitando um mundo mágico cheio de pessoas malucas. Ao longo do processo, fomos sentindo a necessidade de justificar as cenas e costurar sentido nelas. Foi um trabalho de pensar como seria a vida da Malu fora do portal para entender quais seriam os dilemas que ela deveria enfrentar no mundo mágico. Assim, cada encontro que ela tem com os personagens do filme representa um conflito que ela carrega no mundo real. Além disso, devemos muito aos nossos atores, que realmente deram vida aos personagens. Muita coisa surgia durante os ensaios, em improvisações. Tivemos a sorte de trabalhar com atores incríveis do curso de Artes Cênicas da UNICAMP.
A grande questão do filme está centrada na construção identitária. O que é normal, o que é estranho? Pensamos muito nisso. Os seres do filme colocam a Malu diante de situações que a fazem questionar e entender melhor aspectos de sua própria identidade. E a soma das escolhas feitas por ela durante o filme levam a protagonista a se aceitar como ela é, compreendendo seu jeito “maluca” de ser.
Para finalizar, gostaríamos de agradecer às equipes de todos os CEU’s que nos acolheram. Continuaremos nos esforçando para circular o Coisa-Malu em espaços que possamos conversar com as crianças, podendo pensar junto a elas sobre o filme, sobre as questões da identidade e sobre outros mundos. São momentos de troca como esses que nos motivam a continuar produzindo e refletindo conteúdo para e com crianças.
Da mesma forma, somos gratos pela oportunidade e pela recepção de vocês. Temos grande admiração e referência nas publicações do Portal comKids, por isso conhecer e conversar com vocês é muito importante para nós.

Assinam o roteiro e a direção de Coisa-Malu: Ana Luísa Teixeira, Camila Santana, Levi Munhoz, Paula Cintra Ferreira, Renan Vieira e Tobias Rezende

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Coisa-Malu. Divulgação.

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Coisa-Malu. Divulgação.

Trailer

Making Of – Direção de Atores (Lyvia/Malu)

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