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Por: Giovana Botti (Redator)

Alunos de duas escolas públicas ganharam a liberdade para usar câmeras fotográficas e filmadoras no ambiente escolar da cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, em uma experiência acadêmica diferente. As descobertas e os registros audiovisuais, sem o compromisso de narrativas e sentidos, foram o ponto-chave da produção realizada pelas crianças.

A pesquisa é coordenada pelo professor César Leite na UNESP, com financiamento do CNPq, da Capes e da Fapesp. O pesquisador acompanha um grupo de alunos, desde a fase da creche, nos primeiros contatos com a linguagem audiovisual e o trabalho resultou em um processo criativo desprovido da lógica linear, um prato cheio para repensar o olhar das crianças representado nas produções culturais infantis.

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foto: projeto Ação, Câmera, Luz: entre imagens e olhares, experiências de infância e montagem

A seguir, o professor César Leite, da Unesp, conta ao comKids a experiência de valorizar o protagonismo das crianças na produção de imagens. “É uma mudança radical de enfoque. Ver as imagens te coloca na posição infantil de ver o mundo pela primeira vez”, relata o professor da Unesp, especialista em Psicologia do Desenvolvimento e da Educação.

ComKids – Como começou esse trabalho sobre a produção de imagens por crianças?

A gente desenvolveu um conjunto de quatro pesquisas no campo da imagem e do cinema, em fronteira com a educação. A primeira pesquisa foi feita com professores e teve como tema central a potência do cinema no espaço da educação, para estimular análises e discussões. O segundo projeto foi o primeiro movimento de produção de imagens pelas crianças. Começamos pensar o que seria um cinema sem uma ideia inicial. Como a gente pode radicalizar o Glauber Rocha – uma ideia na cabeça e uma câmera na mão?

Foi quando nasceu o projeto Ação, Câmera, Luz: entre imagens e olhares, experiências de infância e montagem. Entregamos câmeras filmadoras e fotográficas a 30 crianças de 8 a 11 anos de idade, do ensino fundamental. Com as câmeras na mão, elas saíam pelas escolas (o projeto foi desenvolvido em dois colégios públicos da cidade de Rio Claro-SP) para que fotografassem e filmassem o que bem entendessem.

E eles aprenderam a lidar com o equipamento?

Não. A única instrução que nós demos ao entregar as câmeras foi: “Aqui liga e aqui desliga”. Não tinha nenhuma instrução de zoom, não tinha nenhuma instrução técnica. No geral, muitas dessas crianças não precisam de instrução mesmo.

Muitos mexem na câmera melhor do que eu.

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foto: projeto Ação, Câmera, Luz: entre imagens e olhares, experiências de infância e montagem

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foto: projeto Ação, Câmera, Luz: entre imagens e olhares, experiências de infância e montagem

E como foi o processo de produção?

Nesse projeto havia três questões interessantes. Uma era a produção de imagens pelas crianças, a produção de filmes por elas e o making of. Enquanto eles produziam as imagens, eles filmavam. E também gravavam enquanto editavam o filme.

Em relação a tema, começou a surgir uma perspectiva: as crianças filmam muito o chão. A partir da ideia do “filmar do chão”, podemos pensar a pesquisa como processo, como caminhada, não como algo pronto, mas como um percurso que você atravessa, um caminho que você percorre. Nós chamamos isso de pesquisa como experiência.

Quando você vai pra um trabalho em que se entrega a câmera na mão da criança, você não sabe como vai sair da pesquisa, não sabe o que ela vai te apresentar. Fazer pesquisa com crianças quando elas produzem as imagens é mudar radicalmente o protagonismo da cena. Porque não é mais o adulto aquele que olha e produz.

Para mim, isso parece interessante porque quando a gente vai pensar em produção de mídia, conteúdo midiático ou conteúdo imagético para crianças, necessariamente temos que começar a pensar qual é o tipo de conteúdo que se está oferecendo à criança. Quando a gente pensa na criança com outro protagonismo, não podemos pensar em produção feita somente para a criança, mas também é preciso pensar em produções feitas “pela” criança e “com” a criança. É uma mudança radical de enfoque.

Eles lidaram também com o processo de edição das imagens?

Quando eles sentavam para fazer o filme, eles tinham diante deles cerca de 3 mil imagens para selecionar. Só então criavam um tema e a partir dali definiam as imagens. A contribuição bacana disso está posta no making of, que tem as crianças na luta e na negociação de sentidos diante de mais de 17 horas de filmagem. Foi interessante acompanhar todo esse movimento de produção quando elas estavam sozinhas para decidir.

Outro elemento importante é o de bricolagem, a ideia de montagem, da composição que as crianças fazem quando estão editando seus próprios filmes.

Nesse processo, o protagonismo da criança é ainda maior.

Mais protagonismo ainda. Aí ele emerge com força. Mesmo que o “filminho” deles seja no modelo hollywoodiano, quadradinho, amarradinho – até porque é esse o modelo que eles têm para ver -, o exercício de montagem é muito rico. Não de um sentido que está dado, mas de um sentido que pode ser produzido, criado, inventado.

E como são essas imagens produzidas pelas crianças?

As imagens geralmente são imagens vertiginosas. Não são imagens muito nítidas, bagunçam o correto, nos tiram de um campo de sentido dado. Sabe aquela coisa que a mídia faz o tempo todo com a gente? Ela nos empurra um sentido, ela nos dá um sentido. São os clichês que se produzem.

Ao contrário disso, quando a criança traz imagens sem sentidos, necessariamente nos desloca de um lugar confortável de pensar produção da imagem.

Essas imagens produzidas pelas crianças, sem nitidez e que dão vertigem, são imagens desse vir a ser da infância?

No campo das linguagens se tem trabalhado muito com a ideia de representação. Porém, o que nós percebemos é que as imagens produzidas pelas crianças não representam nada, mas nos tocam, nos afetam, nos atravessam. E ao nos afetar, nos leva a produzir sentidos. Não é o sentido que está dado pela imagem, tal como uma montagem bonitinha que você vê no Facebook, com uma legenda explicativa. É uma imagem que te tira desse lugar confortável.

A pesquisa também se estendeu para produção de imagens por crianças ainda menores, em creches.

Sim, esse foi o terceiro projeto, com 67 crianças na creche. Todo o processo era filmado por elas e pelas professoras. E desta vez nós incluímos Ipads, para facilitar o manuseio pelas crianças menores. Nesse projeto, a gente percebeu outro tipo de interação. É como se a câmera desse visibilidade a um mundo que está aí e a gente não presta atenção. É como se, na produção de imagem, a criança nos mostrasse um mundo que está aí e a gente passa batido por ele. Por exemplo, a formiga está no chão. Mas a gente não vê a formiga andando. Quando as crianças focam na formiga, ou capturam a formiga pequenininha – que fica enorme no Ipad e na câmera -, elas criam uma condição de extraordinário naquilo que é ordinário. Tiram do lugar comum e dão um lugar especial àquilo…As crianças fazem isso com essa relação cotidiana com o mundo.

Há uma sequência interessante em que um menino fotografa os pés dos cadeirões dos bebês da creche e só foca nos pés. Atrás dele, a professora fotografa as mesmas crianças na sala, com a perspectiva da visão do adulto para registrar as crianças nos cadeirões. É interessante comparar a produção de imagem das crianças e dos adultos. Que mundo é esse que as crianças nos oferecem através das imagens? E que mundo é esse que os professores podem nos oferecer?

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foto: projeto Ação, Câmera, Luz: entre imagens e olhares, experiências de infância e montagem

Durante a pesquisa, vocês notaram que a câmera funciona quase como uma extensão do corpo da criança. Como isso acontece?

Inclusive eu escrevo isso assim: camerascorpos/corposcameras. É como se a câmera pulsasse na mão da criança. É como se a câmera fosse um corpo vivo. Porque me parece que a criança, no geral, não tem uma intencionalidade. É como se a câmera tivesse vida própria, como se ela fosse um corpo. Em algumas cenas, é como se a câmera estivesse acoplada ao corpo da criança e ela sai filmando o que tiver pela frente.
Então você não espera sentido nessas imagens produzidas pelas crianças?

Na minha opinião, não há intencionalidade. Eles pegam as câmeras e saem disparando, produzindo. Por isso, para mim, o produto final não é tão potente quanto o processo de produção. Se a gente quer produzir coisas para crianças, a resposta está em atuar no campo do sensível e não no sentido. Do afeto, aquilo que nos atravessa, que nos toca. Para além de um enfoque pautado unicamente em um modelo de razão, podemos pensar com as imagens que existem muitos outros modos de conhecer e de produzir sentido que não só pela razão. E as crianças estão me ensinando isso.

Assista aqui ao vídeo “O que pode a imagem”.