Colunista

Diana Díaz-Soto

Por: Diana Díaz-Soto

Em uma oficina sobre recomendações de qualidade para conteúdos infantis que realizamos com um grupo de estudantes de animação 3D e design para a comunicação gráfica, nós insistimos na importância de se ter claro o “para quê?” e o “para quem?” de qualquer projeto educativo, ainda mais quando ele está dirigido ao público infantil.
Um dos aspectos que reiteramos foi a importância de se ter a premissa clara, como um sol que ilumina todo o caminho do projeto, que nos indica o norte e enfatiza a pertinência de nosso produto ou conteúdo.
Alguma criança expressou que ela consumia, todos os dias, conteúdos que, segundo ela se atrevia a dizer, não tinham premissa ou propósito. Ela argumentava que eles não saíam daquela “fórmula” dos dois bonequinhos animados que lutavam até a morte enquanto o espectador morria de dar risada.
Claro, interpelei, há conteúdos que não tem um propósito que vá mais além de encher de brincadeiras os tempos de ócio das audiências, e de dinheiro os bolsos dos criadores, graças à monetização das visitas recorrentes e da publicidade. Ainda que essa intenção possa ser legítima, também é pertinente nos perguntarmos se cada conteúdo que se publica não pode ser uma oportunidade de se trazer à tona a qualidade tanto no conteúdo, como na forma, se é possível existir um compromisso mais profundo quanto a um propósito que vai além de simplesmente “matar o tempo”. São inquietações que têm a ver com a dimensão que os criadores dão a seus papeis de comunicadores sociais, ao impacto de seus conteúdos nas audiências, à possibilidade de gerar identificações culturais, emocionais e cotidianas, de abrir horizontes e de servir de espelho para todos.

Para criar conteúdos de qualidade, que realmente aportem conhecimentos desde suas diferentes linguagens, plataformas e meios, fortalecendo a dimensão cultural dos cidadãos, é necessário investigar, conhecer os públicos, ver, pensar, criar, a partir da definição a respeito do “para quem” eles estão dirigidos – um nicho, uma comunidade, um grupo humano que se reconhece, que se pesquisa, que se indaga e se aprofunda – e a respeito do “para quê?” – um propósito claro que orienta a proposta, o processo e o produto.
Eu sou tão reiterativa com esse ato de perguntar sempre o “para quê?” de qualquer ideia, que eu mesma faço a piada, como se fosse uma locutora de rádio: “E agora tocaremos o sucesso ‘Para quê?’”. Antes de pôr uma ideia em movimento, nós precisamos ter claro como essa proposta pode chegar a ser inserida no catálogo de experiências dos cidadãos, precisamos saber o quanto ela pode ser pertinente e necessária e como pode ser viável e relevante para os públicos nos quais estamos pensando.
Daí vem a transcendência da pergunta pelo “para quem?”: pelos públicos, pelas audiências específicas às quais o conteúdo está sendo dirigido. É fácil afirmar que o público é geral, que é para todo mundo, que é familiar, mas essa amplitude torna ambíguo o interlocutor e faz com que os criadores percam a possibilidade de falar a um grupo humano em concreto, com características e interesses similares. Direcionar um programa a um nicho de audiência nos permite tomar decisões específicas quanto à narrativa, à linguagem audiovisual, à estética, aos diálogos, aos conflitos, à configuração de valores, entre outros aspectos que permitem engajar as audiências a partir de sua identificação com histórias e personagens que lhe são próximas e com as quais estão relacionadas.
Não foram poucas as vezes nas quais fui testemunha – e também vivi – de que quando se tornam óbvias as perguntas sobre o “para quê?” e o “para quem?” de uma iniciativa os resultados se reduzem a assuntos estéticos e conseguem entreter, mas o conteúdo evapora, se torna efêmero.
É assim como aquilo que acontece quando uma pessoa não sabe para onde quer ir, qualquer ônibus que ela tomar lhe servirá. Qualquer ideia é boa e, com segurança, o resultado pode ser algo sem transcendência.

Imagem do destaque: Samuel Macedo / Projeto Infâncias

Compartilhe:

   
Diana Díaz-Soto
Diana Díaz-Soto

Comunicadora social com ênfase em comunicação educativa pela Universidade Javeriana, especialista em educação / comunicação pela Universidad Central e mestra em estudos culturais pela Javeriana. Atualmente, é diretora do Señal Colombia. Coordena o projeto de comunicação cultural e infancia para a área de comunicações do Ministério de Cultura da Colômbia. Tem experiência na conceptualização e no seguimento a projetos de televisão educativa e cultural para a televisão pública colombiana e é redatora de informes técnicos e sistematizações. Apaixonada, é uma principiante na escritura de narrativas curtas e em ilustração.