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Por: comKids (Redator)

por Heloisa Prieto
especial para o comKids

O que significa “ponto de virada”?

No jargão cinematográfico, o momento em que uma nova informação narrativa é introduzida de modo a modificar o rumo dos acontecimentos.

O que é um gancho?

A técnica de interromper a narrativa em seu ponto máximo de suspense.

Essas estratégias que continuam sendo adotados em manuais de roteiro, na verdade, foram desenvolvidas por escritores de folhetins, no século dezenove, quando os jornais impressos passaram a publicar histórias sequenciais como forma de ampliar as vendas.

Alexandre Dumas, talvez o grande mestre do gênero, por sua vez, baseou-se na estrutura narrativa de Mil e Uma Noites, o clássico da literatura árabe. Sherazade, a contadora de histórias, precisa manter vivo o interesse do sultão que ameaça sua vida. Recorrendo à sequências narrativas que se entremeiam, ao gancho e outros recursos estilísticos, ela seduz o monarca ouvinte.

Os jornais e seus folhetins geraram longas histórias que continuam sendo adaptadas pelo cinema. A obra de Alexandre Dumas, entre outros, já apresenta mais de 200 adaptações. A cada meio de comunicação inventado, novas maneiras de narrar.

Talvez Disney tenha sido o primeiro a criar uma estratégia de lançamento de suas obras que pode ser definida como “combo literário”: assista o filme, leia o hq, compre o livro e os brinquedos. Optando primordialmente por contos de fadas, suas primeiras realizações geraram uma cultura infantil que muitos de nós acalentam na memória.

Ao observar os stands da feira de Frankfurt, principalmente, aqueles que abrigavam os países de língua inglesa, pude perceber que a tendência a traduzir uma mesma família narrativa em vários suportes, parece mais forte do que nunca.

Quem será o novo “Harry potter”?

A busca pela história “mina de ouro” cuja estrutura pode adequar-se a toda uma rede de aplicativos, livros, filmes, brinquedos, é incessante.

Em contrapartida, nos stands de língua alemã, pude verificar publicações que visam a preservação e cultivo da arte de narrar. Belas caixas com imagens para a narração de histórias, ou ainda jogos criativos para o desenvolvimento da literatura oral, apresentavam-se como uma constante, uma tendência simultânea à tecnologia da literatura, por assim dizer.

Visitando estandes como o da Turquia ou Eslovênia, entre outros, encontrei lindas edições de romances nos quais parece haver uma ficção fantástica, característica da cultura de cada país. Por vezes, o ponto de partida era o real, mas nem sempre. Os resumos das histórias de algum modo retratando a sensibilidade específica de seus lugares de origem, ao mesmo tempo em que apontavam para uma tendência a alçar vôo para mundos paralelos. Acontece que cada cultura imagina os universos de sonho de maneira particular.

Quando se estuda os movimentos e escolas literárias, observa-se um movimento pendular, ora o desafio da narrativa ancorada na realidade, ora, histórias que geram outras realidades que não a cotidiana, os universos paralelos, justamente.

Por que a necessidade de universos paralelos? Haverá uma sede de mitologia? Uma busca contemporânea por linguagem simbólica?

Quando se observa  o sucesso dos grandes vencedores de bilheteria, percebe-se que as fronteiras entre a categoria infantil e adulta estão cada vez mais tênues. Como fica o adulto diante de uma criança com maior facilidade no manuseio de aplicativos e linguagem digital de um modo geral?

Essas foram questões que vieram à minha mente durante a feira. Além disso, a percepção de que se trata realmente de um espaço para a comercialização da literatura em todos os seus suportes atuais. Muitos debates sobre o mercado, estratégias de venda de narrativas, poucas discussões sobre a infância contemporânea, em especial.

Ao mesmo tempo, a indústria do entretenimento predominando sobre conceitos como literatura para o desenvolvimento do ser, como memória do mundo, educação da sensibilidade.

Lembrei de debates em escolas no Brasil, nos quais os mesmos pais que jogam videogames com seus filhos, reclamavam de literatura mais voltada para o foco narrativo interno, a subjetividade, em detrimento da produção de autoajuda infantil, ou seja, histórias moralizantes e superficiais.

Em outras palavras, para o adulto, as narrativas para entreter, estejam elas em livro, filme, ou aplicativos, parecem inócuas, por mais violentas, vorazes e competitivos que sejam seus protagonistas. Por outro lado, o livro escolhido para debate em escola tem a atribuição de imprimir sentidos que se instalam como marcas irreversíveis.

A atitude parece paradoxal e realmente é, mas detona, em ambos os casos, uma falta de percepção dos estratos mais profundos da narrativa, bem como a capacidade de emanar sentidos subjetivos que a literatura contém.

A demanda por ficção fantástica de forte ação, em detrimento das narrativas de focalização mais interna, poética, bem como das histórias ancoradas no real, pura e simplesmente, talvez apontem para um desejo de prolongamento da infância, da parte do adulto. O jovem, em contrapartida, interessa-se pela vida como ela é, além dos games, cinemas e efeitos especiais, daí talvez a curiosidade pelas biografias, livros depoimentos e diários, mesmo quando ficcionalizados. Haveria então um processo de amadurecimento precoce nos jovens atuais?

Seja qual for o suporte, escrita cinematográfica, teatral, literária, o escritor é sempre alguém que se coloca o desafio de criar mundos alternativos. Narrar uma história, abrir um livro, sentar no cinema ou ligar a tv para assistir um filme, são rituais de passagem a portais. Uma magia que prescinde de análises de mercado, uma arte que se pratica desde os primórdios, configurando novos pensamentos, percepções, tocando o ouro alquímico: a capacidade de transformação inata a cada um. Afinal, o que são vampiros e lobisomens senão criaturas em mutação constante?  Que rastros deixam os seres ficcionais? Que problemas desvendam? Como decifrá-los? Será possível desfrutar das novas narrativas em estado de leitura criativa?

Estes são algumas questões fundamentais que as narrativas contemporâneas e seus múltiplos suportes parecem nos indagar.

Heloisa prieto viajou para a Feira de Frankfurt a convite da Editora FTD.