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Por: Liana Milanez (Redator)

Um projeto de televisão infantil – público e estatal – como o que propomos com o PAKAPAKA precisa de pais, professores, diretores, avós, tias ou irmãos maiores de todo o país. Se a partir do canal convidamos os meninos e meninas a perguntar, descobrir, fantasiar, jogar, investigar, criar, expressar-se e participar, isso exige um esforço verdadeiro quando a televisão se apaga.

É assim que se apresenta a televisão pública argentina  – Pakapaka – um canal aberto dedicado ao público infantojuvenil. A palavra Pakapaka, em Quechua,  significa esconde-esconde, brincadeira de crianças. Originalmente, esse era o nome da faixa infantil do Canal Encuentro, primeiro canal educativo, mantido pelo Ministério da Educação da República Argentina. Desde setembro de 2010, o canal  Pakapaka opera 24 horas por dia, com uma programação de qualidade, e conteúdos audiovisuais dirigidos a crianças de  2 a 12 anos, além dispor de um espaço na web voltado também aos pais e professores.

No último comKids Prix Jeunesse Iberoamericano, o canal argentino ficou em segundo lugar em número de conteúdos finalistas selecionados pelo pré-juri, com um total de 21 programas. O primeiro lugar em número de finalistas ficou com o Brasil, com 29 selecionados, entre vários canais e produtoras. Nesta 6ª edição o comKids recebeu mais de 200 inscrições, que resultaram em 101 programas selecionados para exibição no festival.

O Pakapaka conquistou as seguintes premiações:

1º lugar: na categoria até 6 anos, a série De Cuento en cuento:

3º lugar: também na categoria até 6 anos, a série Jugando con el agua

3º lugar: na categoria 7 a 11 anos ficção, com a animação  La asombrosa excursión de Zamba a la Casa Rosada

  

Além destes, o canal recebeu o Prêmio do Júri Infantil (7-11 não ficção), com o episodio David Peralta, Ver sin ver, da série Dibuje Maestro.

Para entender como trabalha o Pakapaka para alcançar o público e conquistar audiência não só na Argentina, mas em vários países da América Latina onde suas produções são exibidas, o comKids conversou com a produtora geral do canal, Mariana Loterszpil, responsável pela área de produção.

Mariana trabalha com conteúdos para crianças há mais de 20 anos, com alguns intervalos em que se dedicou aos documentários. Diz que se diverte trabalhando com os pequenos e mais ainda em pensar o que eles gostariam de ver. “As crianças são todas muito diferentes, assim, é um grande desafio estar a altura do que eles esperam e desejam”, confessa. A seguir, a integra da entrevista:

ComKids:  Descreva os métodos e material de trabalho de produção que utilizam no Pakapaka. Qual o processo criativo? Como surgem as ideias?

Mariana: No canal Pakapaka temos um mapa de conteúdos. Procuramos cobrir todos os temas deste mapa, para todas as idades, entre  2 e 12 anos. Uma vez decidido qual o tema que vamos trabalhar, pensamos em qual seria seu melhor formato, formato e conteúdo são inseparáveis, isso nos leva também a decidir sobre as durações e o target é o primeiro que decidimos quando nos propomos a trabalhar. O formato e a estética que vamos utilizar depende da audiência. Somos uma equipe criativa multidisciplinar, com especialistas em diferentes áreas, como a produção audiovisual, mas também pedagogos, educadores, escritores, diretores, roteiristas, antropólogos, etc.

ComKids:  Qual o tipo de Linguagem utilizada nas produções e  quais as técnicas mais escolhidas?

Mariana: Depende do target, da faixa etária. Para os mais pequenos, trabalhamos mais com animação, muitas obras musicais, alguns documentários curtos sempre com muita participação das crianças e, quando se tratar de crianças maiores,  procuramos desenvolver mais documentários, ficção e  reality….

“Amigos”, uma das mais recentes produções do canal:

ComKids:  Quais são as maiores preocupações e temores na hora de desenvolver um projeto voltado para as crianças?

Mariana: Uma preocupação que temos é estar em sintonia com as mudanças que a infância vai tendo. Sempre decidimos que há múltiplas infâncias e estas vão mudando historicamente e segundo o contexto, ainda que haja só uma infância na hora de pensar nos direitos. Todas as crianças tem os mesmos direitos.

Por outro lado, procuramos trabalhar com todas as audiências. Somos um canal “multitarget”  e isso neste momento em que os canais estão tão segmentados em faixas de idade e gênero, é muito complicado de comunicar claramente para que cada um encontre seu espaço no PAKAPAKA.

ComKids:  Quais as maiores dificuldades enfrentadas para o desenvolvimento dos conteúdos? Enumere algumas dessas dificuldades enfrentadas no decorrer do processo criativo e de produção.

Mariana: Um grande tema e desafio é sempre o orçamento. Mais ainda estando no estado (Ministério da Educação) com a responsabilidade de administrar esse dinheiro público. Decidir como e de que maneira se destina um orçamento é um grande tema. Conseguir sócios coprodutores que estejam alinhados com um determinado projeto também é importante. Pakapaka já é reconhecido na América Latina e  tem parceiros no Brasil, Colômbia, Chile, Equador e Bolívia. Essa é uma batalha ganha, poder trabalhar em conjunto para fazer uma televisão de qualidade para as crianças e  compartilhar as produções.

ComKids:  Qual o processo de realização  que você utiliza e com o que você conta para a Produção? Coprodução? Parcerias?

Mariana:  No canal Pakapaka temos cerca de 70 a 80 por cento de licitações públicas, é o que corresponde por se tratar de um organismo público. Essas licitações contém as necessidades de programação que elaboramos  nas reuniões de equipe do canal. Convocamos  as várias  produtoras –  podem se apresentar qualquer que resida no país. Depois de uma exaustiva avaliação ganha quem apresentou a melhor proposta e a que mais se adequa às necessidades do canal. O resto são contratações diretas que devem ser justificadas minuciosamente por que estão sendo contratadas.  Temos já quase 30 por cento de projetos em coprodução locais com produtoras independentes  e organizações, e também com outros países da América Latina.

ComKids:  Como desenvolvem o processo criativo, as etapas de produção? Como opera sua equipe?

Mariana:  Como me referi antes, a necessidade de conteúdo surge da própria equipe de conteúdo e da direção do canal. Trabalhamos com assessores especializados em cada tema. Depende do caso, pensamos o formato no canal ou pedimos nas licitações. Ou seja, explicamos que conteúdo queremos trabalhar e os inscritos propõem o formato. Esse é um ponto forte que avaliamos na hora de escolher o ganhador, a originalidade do formato proposto.

Quando se prepara o projeto para ser licitado, já tem um produtor determinado que é quem vai seguir o dia a dia da série. Para começar, se faz uma reunião de equipe com todas as áreas e, depois, uma vez que o projeto inicia e vai caminhando, o produtor é o responsável pelo seguimento, para que o projeto possa chegar a se desenvolver no tempo e forma. O produtor indicado não só segue o dia a dia mas também ajuda e acompanha os realizadores para que o programa esteja dentro da linha editorial do canal. Cada produtor indicado tem a cargo até sete projetos, alguns com durações curtas e outros mais longas.

ComKids:  O momento hoje na Argentina  está favorável para projetos voltados ao público infantojuvenil?

Mariana:  É um bom momento onde estamos lutando para que se implemente a lei e todos os canais tenham suas três horas diárias de produções para as crianças. Hoje temos convocatórias do INCAA, das estados (províncias, na Argentina) que também estão trabalhando para produzir televisão de qualidade para as crianças. Por outro lado, no estado existem comissões e organismos, dos quais fazemos parte, para capacitar e orientar comunicadores em temas da infância e mídia. Há pouca tradição neste sentido e é uma aprendizagem que os profissionais devem transitar.

Um trabalho para as crianças, sem esquecer dos pais e professores

Para o Pakapaka, a convergência é um processo que excede as questões técnicas para converter-se em um fenômeno cultural. Institucionalmente, consideram que não só os suportes convergem, mas também as práticas de produção e consumo cultural. Nesse contexto, hoje procuram produzir pensando em todos os aparatos técnicos, a câmera, o computador, o rádio, o celular entre outros equipamentos que a tecnologia digital oferece.

Inspirado na ideia de integração, o canal Pakapaka criou o portal:  www.pakapaka.gov.ar, com a proposta de acompanhar, fortalecer e ampliar a filosofia do canal para a infância como: gerar conteúdos infantis e nacionais de qualidade acessíveis a todos; estimular a participação das crianças e seu protagonismo; a concepção de infância como algo complexo; o respeito pela diversidade; o tratamento responsável dos temas tratados; a abordagem de gênero e de capacidades diferentes; e o valor do jogo.

Front do site

Front do site Pakapaka

Para o canal argentino, a relação entre a infância e a televisão (e telas em geral) não pode ser pensada sem levar em conta o lugar que as crianças ocupam na sociedade, seu status político e cidadão, sua visibilidade social e sua inclusão ou exclusão da agenda das políticas públicas. Ao mesmo tempo, consideram que não se pode desconhecer a interatividade que promovem os suportes digitais, o desenvolvimento de ferramentas de autor, a divulgação de chats, os foros, blogs ou as redes sociais como oportunidades de comunicação que propiciam novas formas de expressão e participação cada vez mais acessíveis e dispendiosas.

Tudo isso levou o PAKAPAKA a se instalar na web como um espaço privilegiado para a comunicação de diversos pontos de vista. É também um lugar para o debate público centrado na diversidade e no reconhecimento plural.

No Pakapaka  se considera que para tornar públicas suas ideias e suas visões do mundo, as crianças, como sujeitos de direito, devem ter ter acesso aos espaços onde possam produzir mensagens que os inclua e os posicionem como grupos influentes na tomada de decisões. Pakapaka mantém na web três sites diferentes, para os distintos públicos:

Site para crianças de 2 a 5 anos: Ronda Pakapaka

Site para crianças de 6 a 11 anos: PKPK

Site para pais e professor: Docentes e família

Para o canal, assistir TV é muito mais do que ficar sentado na frente de uma tela. “Nos importa o que acontece quando a TV está ligada, mas nós nos preocupamos muito com o que acontece quando a TV está desligada. PAKAPAKA é mais do que um canal de televisão, é um projeto cultural”, completa Mariana.

Para mais informações sobre os conteúdos de todos os sites do Ministério da Educação veja aqui.