Colunista

Latin Lab

Por: Latin Lab

Por Cielo Salviolo

Em primeiro lugar, pensar, criar, projetar e produzir conteúdos audiovisuais para a infância pressupõe uma responsabilidade, no mínimo, ética. Não se trata de reproduzir, em série, peças com formatos já comprovados e de repeti-las de modo impensado. Não se trata de colocar um apresentador divertido e de fazê-lo cantar e dançar. Tampouco é simplesmente mostrar crianças na tela.
Pensar conteúdos para a infância implica fazer uma série de perguntas a nós mesmos: o que queremos contar? A quem queremos contar? Por que queremos contar?
Todos nós que fazemos conteúdos audiovisuais infantis queremos captar a atenção das crianças, mas é importante fazê-lo de maneira significativa, captar a atenção para ser um aporte a suas vidas.
Nessa tarefa, existem algumas questões-chave para pensar nosso trabalho diário:

– Conhecer e reconhecer a infância:
Conhecer e reconhecer as crianças é pensar nelas como seres sociais, determinados historicamente. É pensar o modo como eles se relacionam com seu entorno e como influem sobre ele, no seio da família, da comunidade, da sociedade. Conhecê-los em suas casas, suas escolas, em suas ruas, bairros, em seus grupos sociais. É pensá-los como produtores de cultura que têm que ser reconhecidos como tais pelos meios de comunicação. As crianças são portadoras de saberes, de concepções, de modos de ver o mundo, têm inquietudes, desejos, perguntas e questionamentos à sociedade em que vivem. Isso pressupõe entendê-los como protagonistas, sujeitos que podem construir e ressignificar aquilo que recebem, a partir de seu próprio contexto.

– Ter um contrato com a nossa audiência:
Projetar conteúdos audiovisuais exige necessariamente um olhar sobre a infância que sustente esse trabalho que fazemos. Implica conceber, também desde o lugar dos meios de comunicação, aos meninos e meninas como portadores de histórias que enriquecem a vida em comum com lembranças, vivências, experiências, com um passado, um presente e um futuro a ser construído. E pensá-los como atores sociais à medida que são membros de grupos como as suas famílias, comunidades, bairros, seus grupos de pares, etc. Também implica pensar a infância como uma forma específica de experiência de vida, com uma força, uma intensidade e uma maneira particular de estar no mundo, não somente como uma fase de transição para a vida adulta.

– Pensar desde a perspectiva dos meninos e das meninas:
Dar protagonismo aos meninos implica incorporar suas vozes, suas perspectivas, suas maneiras de ser, de se expressar e de se vincular com o mundo. Suas preocupações, seus interesses, suas emoções, as perguntas que se fazem, os modos que têm para processar a realidade, suas vozes e suas atividades são ferramentas centrais na definição de uma televisão de qualidade que os interpele. Não é necessariamente porque as crianças estão sendo exibidas na tela que isso significa que elas são protagonistas, ou que aquilo que estamos fazendo está na perspectiva deles. Torná-los centrais e incorporar as suas perspectivas tem a ver com as suas maneiras de ver o mundo. Tem a ver com fazer com que as perguntas que eles se fazem, suas inquietudes e interesses façam parte da definição de conteúdos de mídia ou programa infantil.

– Representar a diversidade:
Incorporar em nossos conteúdos as distintas maneiras de ser criança em nossos países: incorporar suas maneiras de ver o mundo, seu entorno social, geográfico, mas também econômico e cultural. Suas diferentes experiências.
– Entender a infância como um desafio:
Os meninos atravessam experiências de muito contraste e de uma densidade importante. É importante pensar e criar conteúdos que também possibilitem espaço para as preocupações, conflitos e angústias que os meninos têm, nas distintas etapas que atravessam a infância.

– Ser um estímulo, uma motivação:
Pensar em conteúdos que convidem as crianças a se fazerem perguntas, que despertem a curiosidade e que promovam buscas. Peças que oferecem ferramentas para que essas perguntas feitas possam, em um segundo momento, encontrar algumas respostas.
Por fim, criar conteúdos infantis implica reconhecer que todos os meninos e meninas têm direito a conteúdos de qualidade que os entretenham, estimulem, divirtam e ajudem a aprender; que abram janelas à cultura de nosso país e do mundo e que, para garantir esse direito, os conteúdos têm que passar isso em suas telas, que esteja à disposição de todos e de todas.

Foto: João, o galo desregulado (Brasil), finalista do comKids Prix Jeunesse Iberoamericano 2011

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LATINLAB é um laboratório de investigação, criação e reflexão em torno da televisão infantil e das multiplataformas na América Latina.