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Por: comKids (Redator)

Representações de um Brasil rural pouco representado em filmes infantojuvenis chegaram às telas do cinema com a estreia de Sobre Rodas, o primeiro longa-metragem do diretor Mauro D’addio, também roteirista da produção.

O road movie infantojuvenil mostra a saga de Laís, de 13 anos, interpretada por Lara Boldorini, na busca da identidade do pai que nunca conheceu, e Lucas, também de 13, vivido por Cauã Martins, no enfrentamento de um trágico acidente que o colocou em uma cadeira de rodas. Mas é com leveza de abordagem, humor e muita resiliência que os personagens enfrentam a jornada sobre uma bicicleta e um triciclo motorizado.

As temáticas do filme das primeiras experiências de autonomia e vínculos afetivos se passam em paisagens do interior, gravadas na cidade de Monte Alegre do Sul (SP), e os cenários do campo, da poeira da estrada de terra, das casas e dos sabores rurais também se revelam como experiências de formação de repertório visual diverso para o público infantojuvenil, muitas vezes representado nas telas apenas pela perspectiva da infância urbana.

O filme já foi exibido em festivais de vários país e escolhido como Melhor Filme pelo Público do Festival de Cinema Infantil de Toronto, no Canadá, e eleito Melhor Filme pelo júri do Chicago International Children’s Film Festival. Também foi premiado como Melhor Filme pelo júri ecumênico do Schlingel International Film Festival for Children and Young Audiences (Alemanha).

Os protagonistas Lucas (Cauã Martins) e Laís (Lara Boldorini)

A seguir, uma conversa com o diretor Mauro D’Addio sobre o longa, a experiência do pós-filme nas exibições com plateias infantojuvenis e a abordagem de temas sensíveis e universais em um universo de infância do interior do Brasil.

comKids – Depois de dirigir curtas premiados como Kunumi, que fala sobre demarcação de terras (disponível gratuitamente no www.spcineplay.com.br), você se lançou num longa-metragem. E você também assina o roteiro. Como foi essa experiência? É grande a diferença entre dirigir curtas e longas? 

Mauro D’Addio- As coisas ganham em porte, em todos os sentidos: desde o porte de produção, tamanho que a gente tem que pensar do filme, da estrutura que você tem para realizar, até depois; trajetórias, como chegar no público. Acho que tudo tem outra dimensão do que eu estava acostumado. Mas eu sinto também que a gente também chegou em muito mais pessoas, um público maior. Foi um filme muito bem acolhido internacionalmente, a gente ganhou o Festival de Toronto, o Festival de Chicago. Na Alemanha também estivemos no Festival Schlingel, que foi muito interessante, e sempre com a experiência de ver salas lotadas com público na faixa etária de 12, 13 anos, com recorte muito preciso nos festivais. O pós-filme foi talvez uma experiência mais rica, para mim pessoalmente, por ter esse contato com vários públicos diferentes, do que a realização, que foi incrível, mas já fazia parte da minha vida.

– Só mudou em escala.

Mudou em escala e no sentido de chegar ao público. Chegar, por exemplo, no Tiff, o Festival de Toronto, e ter uma sala com 450 adolescentes assistindo. Houve um dia no Festival de Chicago, que teve uma sala de um cinema tradicional com plateia de mais de 600 lugares, cheia de alunos de escolas, com debate depois da sessão. Esse contato direto com o público foi muito legal.

– E depois de ser exibido em premiado em festivais internacionais no exterior, o filme agora tem estreia nacional, um mercado de cinema infantojuvenil que ainda tem muito a galgar. Qual a expectativa para a estreia no Brasil? 

Na área infantojuvenil, a gente tem gargalos em todos os lugares. Independentemente do país, a gente vê problemas e conquistas em todos os festivais de países em que eu passei… Acho que no Brasil talvez a gente tenha ainda um pouco de menosprezo para o potencial desse público e a gente tem exemplos práticos de filmes bem-sucedidos, inclusive comercialmente, voltados para esse público e acho que isso é um aprendizado recente.

Acho que hoje tem muita gente começando a olhar com mais cuidado para esse público, inclusive exibidor, distribuidora. Hoje eles começam a notar que tem uma demanda. E acho que, por outro lado, há o sentido de qualificar essa produção. Essa é uma grande questão. Eu tenho muito receio em pensar esse recorte de público específico dentro de uma lógica puramente comercial. Dentro da minha perspectiva e do trabalho que eu busco fazer, não é esse o recorte. Eu busco tentar construir coisas de qualidade, que sejam ferramentas que reverberem neles, na vida deles, na formação deles. São pessoas em formação, em um momento importantíssimo da vida, em que eles têm uma atenção muito especial para tudo que eles recebem, muito de peito aberto. Diferente da gente que já tem nossas travas, nossas defesas…Então acho que não podemos menosprezar, tem que respeitar a inteligência deles e falar com eles com conteúdo de qualidade.

Road movie infantojuvenil foi filmado no interior de São Paulo

– Depois de dirigir curtas infantojuvenis, você segue focando nesse público também no longa-metragem.  Quais as especificidades de trabalhar para esse público?  

Trabalhar com esse público foi algo que foi acontecendo um pouco naturalmente na minha vida. Eu gosto de trabalhar para eles. Não sei se quero fazer filmes só para esse público, mas eu tenho trabalhado com muito prazer e acho que tenho um aprendizado que é importante. Acho que a gente tem um diálogo muito franco com eles, tem uma resposta muita franca da parte deles. Isso é muito bonito para quem está do outro lado. Você tem um público que te diz o que achou, que se não gostar já para de assistir, e que se gostar grita, torce e vibra. Isso é muito legal.

Você tem um termômetro imediato do que está acontecendo, isso não é normal no público adulto. E isso eu acho muito intenso e muito forte para mim enquanto realizador. Quando você faz um filme e põe na sala, você não sabe o que vai dar. De repente, você tem uma plateia torcendo, respondendo, rindo…isso é muito bacana. A gente fica muito estimulado a continuar trabalhando.

– Sobre Rodas é um road movie, de uma viagem de duas crianças em uma busca. É um filme de aventura que tem como protagonistas uma menina à procura do pai e um menino vítima de um acidente que o colocou em uma cadeira de rodas. Temas sensíveis em uma narrativa para o público infantojuvenil. Poderia nos contar sobre esse processo de escolha sobre o tema e abordagem no roteiro? 

Me interessava muito trabalhar um conteúdo voltado para esse período da vida, que não é nem a adolescência propriamente dita e nem a infância. Essa pré-adolescência às vezes é um período um pouco esquecido, negligenciado, até no sentido de pesquisa. É um período que fica um pouco mais de lado. E acho que é um período fundamental na nossa formação enquanto indivíduos, para essa saída para o mundo. Quando você sai da concha e vai para o mundo, e começa a entender quem é você. É importante que tenha uma produção de conteúdos diversos que dialogue com esse momento, para a pessoa ter ferramentas para se instrumentalizar e entender o que está acontecendo com ela.

A gente tinha esse foco, essa busca de conversar com esse público específico, mas sem desrespeitar a inteligência deles. Então tem uma opção por tratar temas um pouco mais pesados, com algum grau de carga dramática na produção, mas também com uma leveza, uma forma de dizer: Gente, vamos lidar com o que acontece nas nossas vidas. As nossas vidas, conforme a gente vai crescendo, vai apresentando coisas que não são fáceis de lidar. Como é que a gente lida com isso? Eu mesmo, quando escrevi o roteiro estava passando por um período muito difícil, tinha perdido minha mãe naquele ano. E tem que seguir, tem que achar a beleza da vida. É um pouco essa mensagem que estava pulsando em mim naquele momento e que eu queria compartilhar, porque tinha essa interlocução com esse momento da vida deles e das nossas vidas, pelo qual todo mundo já passou: Quem sou eu, aonde eu vou, com quem estou? É essa busca.

– Mais além do tema, Sobre Rodas é um filme que traz um repertório diverso para esse público: é live-action, com locações no interior, fora de centro urbano, com crianças protagonistas.

Eu vou muito para o interior. A minha esposa tem família em São Luiz do Paraitinga
(SP), eu vou sempre para lá. Escrevi o filme muito lá. Depois a gente teve que optar por outro lugar para filmar, por sorte achou esse lugar maravilhoso que é Monte Alegre do Sul (SP). E a gente tinha essa busca. Eu amo road movies, né? Acho esse lógica de filme de estrada, acho que isso representa muito a nossa vida, a jornada. Isso de viver uma jornada, não importa muito onde você vai chegar.

E filmes que me tocam muito são assim; História Real, do David Lynch, é um filme que me marca muito, dialoga muito com Sobre Rodas. Ou Conta Comigo, Easy Rider mesmo… Tudo isso está um pouco no meu imaginário e eu queria recontextualizar isso no interior, nesse lugar da zona rural, da cultura interiorana, da comida, as paisagens, a estrada de terra…Até um pouco dessa pressão da estrada como um não-lugar, um lugar de passagem, mas onde muita coisa acontece. A ideia era buscar tudo isso no filme.

Sobre Rodas

Direção e Roteiro                     Mauro D`Addio                                  
 
Produção                                 Beatriz Carvalho
                                               Mauro D`Addio
                                               Rafael Sampaio
 
Produção executiva                  Beatriz Carvalho
                                              
Direção de Fotografia             Otavio Pupo
 
Montagem                               Silvia Hayashi
 
Direção de Arte            Fernanda Carlucci
 
Colorista                                  Alexandre Cristófaro
 
Música Original                       Lucas Marcier
                                                Fabiano Krieger
 
Desenho de Som                      Rafael Benvenuti
 
Preparação de Elenco            Ariela Goldmann
 
Produção de Elenco               Rafael Aidar
                                               Ingrid Souza