Colunista

Gabriela Romeu

Por: Gabriela Romeu

Fala ligeira e risada inconfundível, o músico Alemberg Quindins tem sempre uma boa história para contar. É desfiando de um jeito bem-humorado diversos causos e outras acontecências que ele fala da origem de seu nome pouco comum ou de como nasceu a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, instituição localizada na cidadezinha sertaneja de Nova Olinda, no Cariri cearense, onde meninos e meninas exercitam diariamente o protagonismo infantil e jovem.

(Quem trabalha com produção cultural para crianças tem que conhecer o trabalho da Fundação Casa Grande, história que rende um capítulo à parte.)

Tudo o que Alemberg constrói é permeado de narrativas. A Casa Grande, esse espaço onde as crianças criam e apresentam programas na rádio, varrem o chão, mantendo o lugar sempre organizado, e brincam no parquinho do Véio Leonso (tudo com a mesma intensidade), exala muitas histórias – no mobiliário, nas paredes, em cada cômodo. Cada tijolo foi colocado com o cuidado de alguém que narra uma lenda, escolhendo e encaixando as palavras com exatidão.

Meninos da Fundação Casa Grande - Foto Hélio Filho

Meninos da Fundação Casa Grande – Foto: Hélio Filho

Foram as lendas, aliás, que levaram Alemberg à criação da Casa Grande, lugar onde memória não habita só gavetas. Desde a juventude, ele pesquisa a tradição oral e musical da Chapada do Araripe, sempre ao lado de sua companheira, a arqueóloga Rosiane Limaverde. Certa vez, numa entrevista a um programa de televisão, o cearense explicou por que essas lendas estão na essência do que faz. “Vai chegar um dia em que o cientista vai entender o coração da lenda. Aí vai saber por que rodou tanto em círculo, pois o coração está bem no centro.”

Agora, Alemberg lança o primeiro livro de uma série que trará lendas da região, da pré-história à contemporaneidade. Começa por uma história que nos transporta a tempos não tão remotos: “Icasa do Meu Coração”, publicação da Casa Grande Editora. No livro ele narra, a saga da criação desse clube de futebol caririense, criado há cinco décadas, formado pelos operários da Indústria e Comércio de Algodão Sociedade Anônima – Icasa.

Mas engana-se quem entende que esse é só um livro que fala de futebol ou sobre um clube local. Na contramão da tendência de torcer para times internacionais europeus, Alemberg dirige o olhar para questões relacionadas à identidade, à história local – e tudo o que isso pode fomentar localmente.

icasa

“Icasa do Meu Coração” traz textos e ilustrações de Alemberg. Como todas as produções da instituição, a obra foi criada pela família dessa Casa Grande. Conta com a colaboração do adolescente Filipinho Alves e tem sua filha, Ana Sewi Limaverde Lima, como arte-finalista. Reúne imagens que narram com detalhes a saga do Verdão do Cariri e destacam o contexto da terra abençoada por Padim Ciço, com boas pitadas de humor, uma marca do autor.

Para explicar de onde vem a ideia de fazer esse livro sobre o Icasa, Alemberg conta outra história. Nascido no Cariri, Alemberg foi cedo morar com o pai numa cidadezinha fora do mapa, Miranorte (TO), que à época pertencia a Goiás. Na infância, foi um menino inventor de coisas. Inventou cineminha, desenhava e noticiava as partidas de futebol que rolavam no “campinho do pé-de-pequi”, montou uma banda de lata com o irmão.

E criava gibis pequeninos com super-heróis e craques de futebol, que faziam tanto sucesso que vendia aos amigos da cidade que não constava do mapa nem tinha banca de revista. Alemberg tem ainda hoje guardado algumas dessas revistinhas. São verdadeiras relíquias, memórias de sua infância – e com certeza aí mora a chave do sucesso da Fundação Casa Grande, onde o menino Alemberg se mistura aos outros meninos e meninas, se põe a sonhar.

Ah, para terminar, vale contar a história da história do nome de Francisco Alemberg de Souza, como esse educador nato foi registrado no cartório. Francisco surgiu como sugestão da tia, que queria homenagear o santo. Já Alemberg tem origem num personagem de uma novela que a mãe adorava – era um conde garboso. O menino cresceu, ganhou o mundo, abandonou o nome Francisco e incorporou Quindins, herdado dos tempos em que tocava numa banda.

alemberg e seu filho pedro

Alemberg e seu filho Pedro Yã que inspirou a criação do livro

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Gabriela Romeu
Gabriela Romeu

Gabriela Romeu é jornalista e documentarista. É uma das idealizadoras do projeto Infâncias (www.projetoinfancias.com.br), que está documentando a vida de crianças em diferentes lugares do país. Neste espaço, são publicados registros e vivências do projeto, além de outras reflexões sobre as infâncias.